Amar a meleca
a única maneira de manter um sonho inteiro, esperançoso e não decepcionante é nunca tentar vivê-lo
Recentemente tive dificuldades na aula de desenho. Pra onde eu estava indo, onde eu queria chegar? Eu não sabia. E isso me paralisou. Na semana anterior, eu estava recebendo elogios por ter conseguido chegar no lugar proposto por um caminho diferente. Agora eu olhava os exercícios propostos e não conseguia mais executá-los. Ao ver minha dificuldade, o professor me questionava: “tá difícil por quê?” “Por que eu não sei pra onde eu tô indo.” “Mas ninguém sabe”, ele dizia. “Só faz o que você aprendeu. O comando é racional, mas é a intuição que trabalha: onde está a quebra? A curva é mais aberta ou mais fechada? E continua, o conhecimento aqui vem a posteriori, não a priori” .
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Tempos atrás li uma frase que tem ressoado com frequência no fundo dos meus dias: our fate restrict us so that our destiny can find us” (algo como “a sorte nos limita para que o destino possa nos encontrar”; é de um autor americano chamado Michael Meade; soube dele nessa entrevista com o Andrew Garfiel para o NYT). E quantas vezes não me ressenti com as rasteiras do destino, muitas delas consequências das minhas próprias escolhas? Da onde veio a certeza que eu tinha na juventude, de que a vida era só escolher uma estrada e seguir? De onde veio a ideia de que tudo já estava mapeado, que era só seguir uma receita? A aula de desenho tem mostrado justamente o contrário: que sou uma cega tateando o ar em um quarto escuro.
Esse tatear já foi muito mais difícil.
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O paciente deitado na maca precisava ser levado a outro edifício para realizar o exame, e lá fora fazia cerca de 3 graus num fim de tarde de outubro tão plúmbeo e miserável como ninguém conta que Paris pode ser. “Não se preocupe, vamos por um atalho”, disse o enfermeiro que veio buscar o paciente para o exame. Descemos de elevador por alguns andares no subsolo, eu de acompanhante do paciente, que era brasileiro, como eu. Como eu, estava sozinho naquela cidade tão deslumbrante quanto inóspita. Viver em Paris era o meu sonho. Era 2009 e eu estava vivendo o sonho: me digladiava com uma escola de fotografia quadrada e autoritária, com uma melancolia constante e com algumas poucas amizades, recentes e inconstantes. Ele era bailarino, de família modesta, tinha sido aceito na escola de dança dos seus sonhos e ganhado uma bolsa de estudos. A escola ficava no sul da França, mas como era a primeira vez que ele saía do país, quis passar uma semana conhecendo a capital. Ao entrar em uma estação de metrô, foi esfaqueado na barriga por um morador de rua – ao ser preso, o homem disse que cometeu o crime porque tinha frio e, na prisão, teria onde dormir e o que comer.
As portas do elevador se abriram e, enquanto o enfermeiro empurrava a maca para fora, o ar denunciava outra dimensão. Era um traço muito característico do frio que eu até então nunca tinha vivido no meu país natal tropical: as portas se abrem e já na pele do rosto sabemos se é preciso voltar e buscar mais um casaco, gorro ou cachecol, já que ainda não temos consciência do que é estar na rua enfrentando um frio úmido de 3 graus celsius, e a calefação faz até esquecer por que eu precisaria vestir de novo tudo aquilo que estava pendurado ao lado da porta. Eu esperava que as portas se abririam e seríamos recebidos por aquela lufada áspera que nos lembra como o nariz é irrigado por vasos sanguíneos que transportam o calor do nosso corpo homeotérmico. Mas quando saímos em um corredor esverdeado e mal-iluminado como num filme de terror, com um chão brilhoso provavelmente imundo e contaminado, com corrimãos infinitos e rampas que desciam e subiam numa versão ainda mais labiríntica e angustiante que o metrô parisiense, o ar não era frio. Não, o ar era morno, espesso, parado, como um lodo. Como se guardasse a memória da dor de todos os milhares, talvez centenas de milhares de enfermos que passaram por aquele hospital centenário, la Pitié-Salpêtrière. Provavelmente aqueles corredores tinham sido construídos muito antes que alguém considerasse a necessidade de ventilação para a saúde humana. Olhei para o paciente que eu acompanhava, e que eu mal conhecia, pois via pela segunda vez. Talvez ele estivesse pensando o mesmo que eu: os corredores tinham cheiro de morte.
Não lembro se cheguei a dizer algo a ele naqueles corredores. Mas lembro que ali eu me perguntei mais ainda se estava ajudando aquele rapaz quase desconhecido em alguma coisa. Um amigo em comum tinha me enviado um e-mail contando da tragédia e me pediu para visitá-lo. “Ele já saiu da UTI, parece que está bem, mas não sabemos muito mais”. Fui, sem saber muito o que fazer.
oi Katia, Lorena tentou visitar o Renato, mas como é caso de polícia, não pode, só familiares podem visitá-lo.
consegui este telefone, amiga da Katia que estava a hospedar Renato em Paris.
Renato ainda não come nada e se alimenta por sonda, porque a facada atingiu estômago e intestino (digo isso por causa das frutas que vc disse que Lorena levou...). ele está bem fraco e triste, mas melhora um pouco a cada dia...
estamos todos torcendo pela recuperação dele. flores parece sim uma boa ideia. caderno e lápis também… enfim, peça a ela pra ligar pra amiga da Katia, que vai lá todo dia (ninguém da familia foi, a imã tá grávida de 7 meses, o pai não dá conta, a mãe já faleceu...) por isso é mesmo bem-vinda a ajuda dos amigos
Chegamos enfim a um mini saguão apertado onde ficava a máquina necessária para o exame. Eu não podia entrar na sala, tinha que esperar ali fora. Não havia cadeira ou nada parecido para sentar. Os corredores, pelo que me lembro, eram sem janelas. Lá no final do corredor, alguém vestido de branco. O poc-poc dos sapatos atravessando o ar lodacento, se aproximando aos poucos. O contraste entre o ar morno e a temperatura mortiça da luz que mal iluminava os corredores. Os gritos agoniados do bailarino que atravessaram as portas espessas da sala – o enfermeiro tinha me prevenido que o exame seria doloroso, pois ele teria que se esticar. O poc-poc se afastando.
Como não se deixar contaminar pela morte que entrava pelas narinas naquele corredor? O que eu poderia fazer e dizer àquele rapaz para aliviar sua dor? A vida nos anos anteriores dele tinha girado em torno desse sonho. O sonho tinha sido enfim realizado. Ele enfim poderia viver sua grande paixão, que era dançar. Viver na França também tinha sido o meu sonho. Eu estava vivendo meu sonho. E a única maneira de manter um sonho inteiro, esperançoso e não decepcionante é nunca tentar vivê-lo.
Como eu poderia dizer a ele “vai dar tudo certo, você vai ficar bem”, se eu não sabia de nada sobre o futuro dele (nem sobre o meu), sobre ele (e tão pouco sobre mim), sobre aquele lugar que o acolhia, mas que dava arrepios, sobre aquela cidade que nos recebia parecendo não fazer questão alguma disso? Como eu poderia ajudá-lo se quase todos os dias eu mal conseguia levantar da cama, me perguntando o que mesmo eu tinha ido fazer ali, e se eu tinha feito boas escolhas na vida, e se eu algum dia conseguiria mostrar ao mundo alguma coisa que eu tinha me proposto a construir ali? Por que aquele louco não esfaqueou a mim ao invés dele, eu que circulava com frequência por aquela linha de metrô?
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Na última vez que tomei ayahuasca, antes de começar o trabalho, o meu facilitador, um punk taoísta, disse assim: se vier uma peia (uma situação difícil de lidar), agradece, pois se veio, é porque você estava pronta pra receber. Pois a peia veio. E com força: uma desorganização tremenda sem ter onde segurar, a vertigem desesperadora de tudo derretendo, desmanchando; eu não sabia mais qual era meu nome, que língua eu falava. Teve horas que só consegui sair pra tomar um ar, teve horas que eu quis me afundar num poço, enfiar a cabeça no chão que nem uma avestruz. Os momentos em que eu consegui sentar direito e respirar foram as horas que, em vez de pensar mais uma vez, “por que eu me coloco nessa situação? Por que eu invento de tomar essa porra de novo?”, consegui mudar a chave para “já tô aqui, não vai dar pra sair. Tamo na chuva pra se molhar. Então a melhor opção é fazer o possível para curtir, prestar atenção nessa porra, quem sabe até rir um pouco. Vai passar”. Nada como aprender na prática. Vale pro chá, vale pra vida.
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Às vezes, quando eu lembrava do bailarino, me perguntava: e se ele não sobreviveu? E se ele não conseguiu mais dançar? E se ele se resignou a uma vida limitada e limitante em algum canto do mundo? Dezessete anos depois tive coragem de pesquisar pelo nome dele. E descobri que ele continua bem vivo, dançante e lindo, graças.
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Não sei se é a fase, as circunstâncias de vida, se é a idade batendo. É como se a Tristeza do Divertida Mente tivesse assumido a minha mesa de comando. São lentes que olham para o mundo mais tristes, sim. Mas também com uma paciência maior para os nós da vida.
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Quanto mais dificuldade eu demonstrava no desenho, mais eu notava o professor meio inquieto. Eu tinha comentado com ele a minha reflexão da sessão de ayahuasca anterior: preciso aprender a amar a meleca. Não é só aceitar que a vida é uma bagunça, que a vida não é a linha reta, a geometria que eu gostaria que fosse. É amar a vida pela bagunça. Ele olhava minha tentativa de solução do problema, que em vez de tatear pelas curvas, já lançava uma linha precisa e calcada. Perguntava: “mas por que você quer chegar tão rápido? O que importa é o processo…” “Não”, eu dizia. “Fica muito sujo. É tanta curva que eu me perco”. “Ué, mas você mesma não tava dizendo que precisa aprender a amar a meleca? Deixa eu sentar aí e te mostrar como faz”. Eu recusei – “não, quero eu aprender a fazer”. Só depois entendi que aquilo que pra mim era dar o meu tempo e ter persistência, para ele foi um acinte. “Eu sei por que você não consegue: porque você é arrogante”. Olhei pra ele chocada. Ele me encarou, vingativo, e depois virou as costas.
Fosse eu a mesma pessoa que eu era naquele ano de 2009, eu teria mandando o professor tomar no cu, gritaria mais algumas poucas e boas com o dedo em riste na cara dele, catado minhas coisas e ido embora pra nunca mais voltar.
Mas eu não sou mais a mesma.
Não me despedi naquele dia. Mas na semana seguinte, estava lá de novo. Seca, sem esticar conversa nenhuma, mas presente, fazendo os meus exercícios. Não vou jogar dois anos de persistência no lixo por causa de uma escrotidão dele, que tinha feito comigo o que ele mesmo dizia que o pai dele fazia com ele. Mas bem. Ele não é perfeito, eu tampouco.
Não sei se isso é amar a meleca. Talvez seja.



Tudo bem ser meleca, mas bem que ela podia ser pelo menos bonitinha, pra gente gostar de ficar olhando e ir se perdendo e abraçando… que bom que às vezes o que ela nos faz criar é :)
Incrível, Laura. Muito bom te ler!